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Empregos em energia de fusão

Rejobs Atualizado em 5 nov 2026 20 min

Na fusão, trabalhar hoje é construir e testar máquinas, não operar centrais. Em Portugal, a porta é o IPFN do Técnico; a maior parte dos empregos está no ITER, na Fusion for Energy e em empresas privadas, onde convém saber para quantos meses há dinheiro antes de aceitar.

A energia de fusão liberta-se quando núcleos leves de hidrogénio se fundem num plasma a cerca de 150 milhões de graus, confinado por campos magnéticos fortíssimos ou comprimido por lasers. Nenhuma central de fusão forneceu ainda um quilowatt-hora à rede. Mesmo assim, as empresas privadas que as estão a desenvolver empregam mais de 16 000 pessoas e angariaram um recorde de 4,48 mil milhões de dólares nos doze meses até julho de 2026. O que procuram é eletricidade firme e de baixo carbono, que funcione faça sol ou vento, ocupe pouco espaço e use combustível tirado da água e do lítio: o papel que as turbinas a gás desempenham hoje ao lado das renováveis.

Em Portugal, a fusão é uma área pequena e quase toda de investigação. O centro é o Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN) do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, que assegura a participação portuguesa no consórcio europeu EUROfusion e opera o ISTTOK, o tokamak português. A maior parte dos empregos fica no estrangeiro: em Cadarache, na Provença, onde se constrói o ITER; em Barcelona, sede da agência europeia Fusion for Energy; em Garching e Greifswald, na Alemanha; em Oxfordshire; e, cada vez mais, nas empresas privadas que disputam quem constrói a primeira central.

A Rejobs classifica a fusão como energia limpa, não como energia renovável. A diretiva europeia das energias renováveis enumera as fontes que conta, entre elas o vento, o sol, a geotermia, a energia dos oceanos, a hídrica e a biomassa, e a fusão não está na lista. Para uma carreira, conta mais outra coisa: os prazos comerciais são incertos, as empresas definem os seus próprios marcos, e trabalhar hoje na fusão significa construir e testar máquinas, não operar centrais.

Quantas pessoas trabalham na fusão

O relatório de 2026 da Fusion Industry Association inquiriu 56 empresas privadas de fusão e contou 14,24 mil milhões de dólares de investimento acumulado desde o primeiro inquérito. São números da própria indústria, recolhidos junto dos seus membros, mas a contratação vê-se de fora: no fim de outubro de 2026, só a americana Commonwealth Fusion Systems tinha 136 vagas abertas, a maioria em fabrico, montagem e engenharia, não em física.

Os programas públicos empregam muita gente, há mais tempo e com mais estabilidade. A autoridade britânica UKAEA tem 2 600 pessoas e apresenta-se como a maior organização de fusão do mundo. O Instituto Max Planck de Física de Plasmas (IPP), na Alemanha, tinha 1 270 trabalhadores em julho de 2026, 780 em Garching, perto de Munique, e 490 em Greifswald, onde funciona o stellarator Wendelstein 7-X. O ITER tinha 1 102 funcionários próprios no fim de 2023, mas, contando empreiteiros, investigadores destacados e pessoal da Fusion for Energy, trabalhavam no local cerca de 6 500 pessoas. O consórcio EUROfusion reunia, numa contagem de dezembro de 2023, mais de 4 000 investigadores, técnicos e estudantes de 31 instituições em 29 países europeus.

A cadeia de fornecedores também cresce. As empresas de fusão gastaram 538 milhões de dólares com fornecedores em 2025, mais 25 % do que um ano antes. Muitos desses fornecedores fazem também ímanes, câmaras de vácuo e fontes de alimentação para medicina, semicondutores e investigação, por isso há muita gente a trabalhar em equipamento de fusão sem que o nome do empregador o diga.

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O IPFN e a fusão em Portugal

O IPFN nasceu em 2008 da fusão do Centro de Fusão Nuclear com o Centro de Física de Plasmas, mas as raízes vêm de um grupo de investigação em fusão criado em 1987, depois da adesão de Portugal à então Comunidade Europeia. Tem o estatuto de Laboratório Associado atribuído pela FCT e, desde 2014, representa Portugal na ação de cofinanciamento Euratom atribuída ao EUROfusion. O primeiro grande trabalho do antigo Centro de Fusão Nuclear foi construir o ISTTOK.

Na fusão, o instituto organiza-se em três grupos. O de Engenharia e Integração de Sistemas trabalha em sistemas para o ITER, o JET e o DEMO, sobretudo diagnósticos de plasma e sistemas de aquisição de dados, e concorre aos concursos da Fusion for Energy e da organização ITER. O de Física Experimental opera o ISTTOK, participou na operação do JET com parede semelhante à do ITER e explora os sistemas de reflectometria que o IPFN desenvolveu para o ASDEX Upgrade, em Garching, e para o JET. O terceiro grupo dedica-se ao processamento e caracterização de materiais. O instituto colabora ainda com o stellarator TJ-II, em Madrid, com o TCV, em Lausana, e com o Wendelstein 7-X.

Para quem procura emprego, isto traduz-se em três tipos de lugar, que o IPFN anuncia através dos recursos humanos do Técnico: investigadores e pós-doutorados, técnicos de investigação e pessoal administrativo, e bolsas de doutoramento e de mestrado. Os perfis de engenharia (eletrónica, micro-ondas, aquisição de dados, controlo) são os que mais facilmente passam depois para a Fusion for Energy, para o ITER ou para a indústria.

As empresas portuguesas podem trabalhar para o ITER através da Fusion for Energy, que gere a contribuição europeia e é responsável por metade do custo do projeto. O portal da indústria da F4E publica os concursos, mantém uma base de dados de fornecedores em que qualquer empresa se pode registar e indica o ponto de contacto industrial de cada país.

Estudar fusão em Portugal

O caminho mais direto passa pelo Técnico. No mestrado em Engenharia Física Tecnológica, o IPFN dá as disciplinas de plasmas, lasers e fusão e orienta teses, e no doutoramento em Física e Engenharia Física orienta muitas das teses. O IPFN acolhe ainda o APPLAuSE, um programa doutoral internacional em ciência e engenharia de plasmas financiado pela FCT, e participa no Fusion-DC, um doutoramento conjunto em ciência e engenharia da fusão com 29 instituições europeias e a organização ITER entre os parceiros. Duas vezes por ano, organiza no Técnico um curso intensivo de física de plasmas da rede ATHENS, aberto a estudantes europeus.

Para os cargos de engenharia, um curso de física de plasmas não é condição. Empresas e laboratórios contratam engenheiros mecânicos, eletrotécnicos e programadores e ensinam-lhes a fusão; um anúncio da CFS para engenheiro mecânico de ímanes pede cinco anos de projeto e cálculo por elementos finitos e não menciona a fusão. Para engenheiros recém-formados com mestrado, o EUROfusion oferece bolsas de engenharia de dois anos no programa europeu, de que o IPFN faz parte. O ITER tem estágios e um programa de pós-graduação, e as instituições dos países membros podem destacar os seus próprios funcionários para Cadarache através do sistema ITER Project Associates.

Confinamento magnético e inercial

Das empresas inquiridas pela FIA, 48 % apostam no confinamento magnético e 21 % no inercial; as restantes em conceitos híbridos. A escolha define quem o empregador procura.

O confinamento magnético segura o plasma numa câmara de vácuo em forma de anel, com ímanes supercondutores. Os tokamaks (CFS, Tokamak Energy, ITER, o próprio ISTTOK) fazem passar uma corrente pelo plasma; os stellarators (Proxima Fusion, Type One Energy, Gauss Fusion, o Wendelstein 7-X) torcem o campo com bobinas exteriores de forma complexa, o que torna a construção mais difícil e o funcionamento mais estável. O avanço que criou o boom privado dos tokamaks foi a fita supercondutora de alta temperatura (HTS), que permite campos muito mais fortes numa máquina mais pequena: o SPARC, da CFS, usa 18 ímanes de 20 tesla. Estas empresas contratam engenheiros de ímanes, especialistas em criogenia e vácuo, engenheiros de estruturas e muitos técnicos de bobinagem e montagem.

O confinamento inercial comprime uma cápsula de combustível tão depressa que os núcleos se fundem antes de se separarem. A National Ignition Facility, nos EUA, provou a física: a 7 de abril de 2025, os seus lasers entregaram 2,08 MJ a um alvo que libertou 8,6 MJ, um ganho de 4,13. Uma central teria de repetir o disparo várias vezes por segundo, por isso empresas de laser como a Focused Energy e a Marvel Fusion procuram físicos de lasers, engenheiros óticos e especialistas em fabrico de alvos. Também aqui o IPFN tem base, com um grupo de lasers e plasmas. Os conceitos pulsados, como os da Helion e da Zap Energy, procuram engenheiros de eletrónica de potência e de bancos de condensadores em vez de óticos.

Profissões na energia de fusão

Nesta área, os anúncios mudam depressa, porque cada máquina passa em poucos anos do projeto ao fabrico e à montagem. As ofertas de emprego em energia de fusão vêm hoje sobretudo da Commonwealth Fusion Systems, da Thea Energy e da Helion, e a mistura de funções mostra que a indústria está a construir.

Física de plasmas e diagnósticos

Os físicos desenham cenários de plasma, modelam a estabilidade e a turbulência e constroem os diagnósticos que medem o que o plasma faz. É a área mais académica: o doutoramento é a regra e o trabalho divide-se entre códigos de simulação e campanhas experimentais em máquinas existentes. Nas empresas, a equipa de física é pequena. Das 136 vagas da CFS em outubro de 2026, duas eram em física de plasmas, contra 26 nas operações de fabrico e 14 na montagem do SPARC. Os laboratórios públicos, como o IPFN, o IPP ou o IRFM do CEA em Cadarache, contratam mais físicos, muitas vezes a prazo e através de grupos de investigação e desenvolvimento.

Ímanes, criogenia e vácuo

É o centro da contratação no confinamento magnético. Os engenheiros de ímanes desenham cabos e bobinas de fita HTS, calculam esforços eletromagnéticos e mecânicos e planeiam a proteção para o caso de o íman perder de repente a supercondutividade e arriscar destruir-se. Os engenheiros de criogenia mantêm os ímanes à temperatura do hélio ou do azoto líquidos, e os de vácuo constroem câmaras e sistemas de bombagem para ultra-alto vácuo. Os fornecedores veem aqui estrangulamentos: no inquérito da FIA à cadeia de abastecimento, 32 % apontaram as câmaras e bombas de vácuo e 44 % a gestão do calor. Predominam os perfis de engenharia mecânica e de engenharia de materiais.

Alimentação, aquecimento do plasma e controlo

Uma máquina de fusão é uma grande carga elétrica que consome potência aos saltos. Os engenheiros de eletrónica de potência desenham os conversores que alimentam os ímanes e os bancos pulsados de máquinas como a da Helion; os sistemas e componentes de potência encabeçaram a lista de estrangulamentos dos fornecedores, com 48 %. Também há lugar para especialistas em alta tensão. Os engenheiros de radiofrequência constroem os sistemas de micro-ondas e de ciclotrão iónico que aquecem o plasma, uma área vizinha dos diagnósticos de micro-ondas em que o IPFN trabalha. As equipas de controlo e automação escrevem a realimentação em tempo real que mantém o plasma no lugar em milissegundos, e as de desenvolvimento de software tratam da aquisição de dados, das cadeias de simulação e da lógica que protege a máquina.

Ciclo do combustível e materiais

Uma central terá de produzir o seu próprio trítio a partir do lítio, numa manta à volta do plasma, recuperá-lo e voltar a usá-lo. Ninguém o fez ainda à escala, por isso estas equipas juntam engenheiros de engenharia química e de processos, especialistas em trítio vindos da indústria nuclear e técnicos de segurança de processos. No inquérito da FIA, 48 % das empresas de fusão apontaram o ciclo do combustível como preocupação futura e 40 % o acesso a materiais para condições extremas. A Kyoto Fusioneering e os Canadian Nuclear Laboratories constroem em Chalk River, no Canadá, a instalação UNITY-2, desenhada para fazer circular até 30 gramas de trítio num ciclo de 24 horas. Os cientistas de materiais estudam como as paredes se desgastam sob o plasma e os neutrões, e os engenheiros de manipulação remota desenham os robôs que vão fazer a manutenção de peças demasiado radioativas para serem tocadas.

Fabrico, montagem e qualidade

É aqui que estão hoje mais vagas. Os técnicos de produção enrolam bobinas, unem fitas supercondutoras e passam sensores de fibra ótica pelo seu interior; o anúncio da CFS para técnico de produção pede seis anos de montagem eletromecânica e valoriza experiência com máquinas de bobinagem e com azoto e hélio líquidos. Os técnicos de montagem constroem a própria máquina, os soldadores fazem a soldadura de câmaras com qualidade de vácuo e as equipas de garantia e controlo da qualidade, com os ensaios não destrutivos, aprovam cada junta. Os engenheiros de fabrico e produção transformam protótipos únicos em processos que se possam repetir numa série de centrais. Quando as centrais passarem à obra, como a da CFS no condado de Chesterfield, na Virgínia, a procura desloca-se para a construção civil, as tubagens e as montagens elétricas.

Segurança, licenciamento e gestão de projetos

Os dois mercados principais regulam a fusão com menos peso do que a cisão nuclear, e isso criou uma especialidade nova. Desde 10 de setembro de 2024, as instalações de fusão britânicas estão isentas de licenciamento nuclear e ficam sob a autoridade de saúde e segurança e os reguladores ambientais. Nos EUA, a Nuclear Regulatory Commission propôs em fevereiro de 2026 regular as máquinas de fusão pelas regras dos materiais radioativos e não como reatores. As empresas procuram especialistas em conformidade regulamentar capazes de escrever pedidos de licença que ninguém fez antes, técnicos de proteção radiológica e de segurança e saúde no trabalho, e profissionais de engenharia de sistemas e de gestão de projetos que levem a construção de um primeiro protótipo até uma data fixa.

Compras e funções de suporte

O resto de uma empresa de fusão parece-se com qualquer fabricante de equipamento com muito financiamento. As funções de cadeia de abastecimento são invulgarmente técnicas, porque quem compra tem de qualificar fornecedores para peças que ninguém fez antes. As finanças, o jurídico, os recursos humanos e a informática crescem a cada ronda de financiamento, e a entrada em bolsa da General Fusion acrescentou trabalho de contabilidade e finanças de empresa cotada.

Salários na Alemanha e nos EUA

Não há dados salariais específicos da fusão em Portugal, e quase todos os lugares no país são de investigação pública. Lá fora, há dois mundos: as empresas privadas americanas pagam mais e concorrem pelos mesmos engenheiros que a indústria tecnológica e aeroespacial; os laboratórios públicos europeus pagam por tabelas fixas, com pensões e estabilidade.

Função Alemanha, IPP (EUR por mês) EUA, CFS (USD por ano)
Físico / investigador 5 881 - 8 431 152 000 - 230 000
Engenheiro mecânico / de ímanes 5 124 - 7 592 107 000 - 160 000
Engenheiro de eletrónica de potência sénior 5 124 - 7 592 134 000 - 205 000
Técnico de produção e montagem 4 600 - 6 357 30 - 52 por hora

Valores brutos. Alemanha: tabela TVöD Bund em vigor desde 1 de maio de 2026, que o IPP aplica, do 1.º ao 6.º escalão e sem o prémio anual; E13 é a categoria habitual dos investigadores, E11 a dos engenheiros e E9b a dos técnicos. EUA: intervalos publicados nos anúncios da Commonwealth Fusion Systems em Devens, no Massachusetts, em outubro de 2026; o valor dos técnicos exclui o suplemento de 10 % do turno da tarde, e o dos físicos refere-se ao nível staff.

A diferença face a Portugal é grande. Um engenheiro que entra no IPP na categoria E11 começa com cerca de 61 500 euros por ano, em 12 pagamentos e antes do prémio anual, bem mais do dobro da mediana de 26 000 euros que o PayScale indica para os engenheiros eletrotécnicos em Portugal. O ITER paga aos seus funcionários segundo uma tabela própria, em salários líquidos isentos do imposto francês sobre o rendimento, e a Fusion for Energy paga pelas tabelas da função pública europeia, isentas de impostos nacionais mas sujeitas a um imposto comunitário. No Reino Unido, a UKAEA ofereceu aos recém-licenciados em 2026 35 227 libras por ano e uma pensão calculada sobre o último salário. Nas empresas privadas, parte da remuneração vem muitas vezes em ações que só se podem vender quando a empresa entra em bolsa ou é comprada.

Condições de trabalho

A fusão concentra-se em poucos polos, e mudar para um deles faz quase sempre parte do emprego. Em Portugal, o trabalho está em Lisboa, no Técnico. Na Europa, em Garching e Greifswald, Darmstadt, Oxfordshire, West Burton no Nottinghamshire, na região de Aix-en-Provence à volta do ITER e do CEA Cadarache, e em Barcelona, onde fica a sede da Fusion for Energy. Nos EUA, nas regiões de Boston e Seattle, no Tennessee e na Califórnia.

O ambiente de trabalho depende da fase em que a máquina está. As equipas de projeto e de física trabalham em escritórios e laboratórios, muitas vezes em regime híbrido; os anúncios do projeto britânico STEP pedem três dias por semana no local. A produção funciona por turnos: os técnicos de produção da CFS no turno da tarde trabalham das 14h00 às 22h30, levantam cargas até cerca de 23 kg e trabalham perto de ímanes potentes, líquidos criogénicos e fumos. Quando as centrais passarem à obra, as condições serão as de qualquer grande estaleiro de energia.

O controlo de exportações pesa mais do que noutras áreas da energia limpa, porque a fusão se cruza com a física de armamento, os lasers e os materiais avançados. Os anúncios da CFS exigem o cumprimento das leis americanas de controlo de exportações, o que pode limitar aquilo em que um não americano pode trabalhar. A UK Fusion Energy exige uma verificação de segurança básica e avisa que mais tarde pode ser necessária uma credenciação superior.

O maior risco é financeiro. A General Fusion, uma das mais antigas empresas privadas do setor, despediu cerca de um quarto dos seus cerca de 140 trabalhadores em maio de 2025, quando ficou sem dinheiro. A britânica First Light Fusion abandonou em 2025 os planos de central própria para licenciar a sua tecnologia. Antes de aceitar uma proposta numa empresa nova, convém perguntar para quantos meses de despesas há dinheiro, de que marco depende a próxima ronda de financiamento e o que acontece à equipa se esse marco atrasar. Os laboratórios públicos, como o IPFN, o IPP ou o ITER, não têm este risco, mas oferecem mais vezes contratos a prazo.

Transição a partir de outros setores

Os empregadores da fusão procuram pessoas onde já existe equipamento parecido. O anúncio da CFS para técnico de montagem principal pede sete anos de montagem técnica exigente e dá como exemplos a aeronáutica, os semicondutores e o petróleo e gás.

  • Da energia nuclear. A proteção radiológica, a qualidade nuclear, o manuseamento de trítio e o licenciamento passam quase sem mudanças. Quem vem de centrais de cisão percebe também de blindagem de neutrões e de peças ativadas, coisa que nenhuma outra indústria ensina.
  • De aceleradores e grandes laboratórios. Aquecimento por radiofrequência, ultra-alto vácuo, criogenia e fontes pulsadas são o dia a dia de laboratórios como o CERN, e quem os opera está entre os candidatos mais próximos.
  • Do fabrico de ímanes supercondutores e de ressonância magnética. A bobinagem, a proteção contra a perda de supercondutividade e o projeto de criostatos servem também para os ímanes HTS, só muda o condutor.
  • Da aeronáutica e da defesa. Montagem de precisão, controlo de configuração e trabalho com tolerâncias apertadas e rastreabilidade total.
  • Dos semicondutores. A disciplina de sala limpa, a deposição em vácuo e o controlo de processo correspondem ao fabrico de fitas HTS e de componentes virados para o plasma.
  • Do petróleo, do gás e da metalomecânica pesada. Equipamentos sob pressão, soldadura qualificada, cálculo de tubagens e gestão de grandes obras, que vão ser precisos quando as centrais se começarem a construir.

Os programadores com experiência em sistemas de tempo real ou em computação de alto desempenho também passam com facilidade; a maioria das empresas não espera que saibam de fusão no primeiro ano.

Trabalhar no estrangeiro: ITER, Fusion for Energy e os polos europeus

França e Espanha

O ITER, em Saint-Paul-lez-Durance, é o maior projeto de fusão do mundo e o aviso mais claro sobre prazos. O plano de 2024 marca o início da operação científica para 2034 e a operação com deutério e trítio para 2039, quatro anos mais tarde do que o previsto e com cerca de 5 mil milhões de euros a mais. Mesmo ao lado, o CEA opera o tokamak WEST.

A Fusion for Energy, em Barcelona, tem mais de 450 pessoas, sobretudo engenheiros, físicos, gestores de projeto e especialistas administrativos, e escritórios em Cadarache, Garching e Rokkasho, no Japão. Os requisitos de base estão ao alcance de qualquer engenheiro português: cidadania da UE, conhecimento aprofundado de uma língua oficial e satisfatório de uma segunda, sendo uma delas o inglês. Os agentes temporários têm em regra contratos de cinco anos, renováveis uma vez, e os agentes contratuais de três; as candidaturas abrem na página de vagas. Em Espanha há ainda o stellarator TJ-II, do CIEMAT, em Madrid, e o IFMIF-DONES, em Granada, para cujo acelerador a F4E fornece o injetor.

Alemanha

É o maior mercado de fusão da Europa continental. O IPP opera o tokamak ASDEX Upgrade em Garching e o stellarator Wendelstein 7-X em Greifswald. O Governo alemão aprovou em outubro de 2025 um plano de ação com mais de 2 mil milhões de euros até 2029 e o objetivo de construir a primeira central de fusão do mundo em solo alemão. A Proxima Fusion, de Munique, angariou 411 milhões de euros em julho de 2026 para construir o stellarator de demonstração Alpha, e o Estado da Baviera juntou-lhe 400 milhões. Em Munique está também a Marvel Fusion, de fusão por laser, e em Darmstadt a Focused Energy.

Reino Unido

O Governo britânico comprometeu 2,5 mil milhões de libras entre 2025/26 e 2029/30, quase tudo através da UKAEA e do protótipo de central STEP, em West Burton. Em Oxfordshire está também a Tokamak Energy, que desenvolve ímanes HTS para o STEP num contrato de 70 milhões de libras até 2029.

EUA e China

A maior parte do capital privado vai para empresas americanas. A CFS angariou mil milhões de dólares em agosto de 2026, num total de cerca de 4 mil milhões, perto de 30 % de tudo o que a indústria alguma vez angariou. A China avança por plano estatal: em julho de 2025 criou a China Fusion Energy Co., com 15 mil milhões de yuan de capital, e em Hefei está a construir o tokamak BEST, previsto para estar concluído no fim de 2027. A contratação chinesa é, porém, quase só interna.

Principais empregadores

Em Portugal

Laboratórios públicos e projetos internacionais

  • ITER - França, Saint-Paul-lez-Durance; tokamak de 33 países, operação científica a partir de 2034
  • Fusion for Energy - Espanha, Barcelona; agência da UE que gere a contribuição europeia para o ITER, mais de 450 pessoas
  • Instituto Max Planck de Física de Plasmas - Alemanha, Garching e Greifswald; ASDEX Upgrade e Wendelstein 7-X
  • UKAEA e UK Fusion Energy (STEP) - Reino Unido, Culham e West Burton; laboratório nacional e protótipo de central STEP
  • CEA IRFM - França, Cadarache; tokamak WEST ao lado do ITER
  • EUROfusion - consórcio europeu que financia a investigação em fusão na UE

Empresas privadas na Europa

  • Proxima Fusion - Alemanha, Munique; stellarator de demonstração Alpha, com ganho líquido de energia previsto para 2031
  • Gauss Fusion - Alemanha; empresa de stellarators criada pela indústria, com demonstrador previsto para meados da década de 2030
  • Marvel Fusion - Alemanha, Munique; fusão por laser e lasers industriais
  • Focused Energy - Alemanha e EUA, Darmstadt e Austin; fusão por laser
  • Tokamak Energy - Reino Unido, Milton Park; tokamaks esféricos e ímanes HTS
  • Kyoto Fusioneering - Japão, com bases no Reino Unido, nos EUA e na Alemanha; girotrões e ciclo do combustível

Empresas privadas nos EUA e no Canadá

  • Commonwealth Fusion Systems - EUA, Devens (Massachusetts); tokamak SPARC, com ganho científico previsto para 2027, e depois a central ARC na Virgínia
  • Helion - EUA, Everett e Malaga (Washington); a central Orion deve fornecer 50 MW à Microsoft a partir de 2028
  • Type One Energy - EUA, Knoxville (Tennessee); central de stellarator Infinity Two com a TVA
  • Thea Energy - EUA, Kearny (Nova Jérsia); stellarator de bobinas planas, máquina Eos prevista por volta de 2030
  • General Fusion - Canadá, Richmond (Colúmbia Britânica); fusão por alvo magnetizado, cotada no Nasdaq desde julho de 2026

A fusão partilha boa parte da base de engenharia com duas outras áreas da energia limpa. A conversão em alta tensão e a ligação à rede aproximam-na das redes e empresas de energia, e a eletrónica de potência das máquinas pulsadas é a mesma que procura o armazenamento de energia.

Perspetivas até 2030

Os próximos quatro anos vão pôr à prova os calendários em que assenta a contratação de hoje. A CFS quer mostrar em 2027 o ganho científico no SPARC, ou seja, mais energia de fusão do que a que se injeta no plasma, e no mesmo ano a China quer concluir o BEST. A Helion prometeu à Microsoft eletricidade da Orion em 2028 e a Proxima Fusion aponta para o ganho líquido no Alpha em 2031. Das empresas inquiridas pela FIA, 71 % esperam que a primeira central forneça eletricidade comercial na década de 2030, mas são previsões de quem anda a angariar dinheiro.

Se pelo menos dois destes marcos forem cumpridos perto do previsto, a indústria passa de máquinas únicas para centrais, e a procura desloca-se dos bobinadores de ímanes e dos físicos para a construção, a operação e o licenciamento. Se atrasarem como o ITER, os 14,24 mil milhões de dólares angariados terão de durar mais, e continuarão a contratar as empresas com mais dinheiro em caixa. Para um engenheiro português, o caminho mais seguro continua a passar pelo IPFN, pela Fusion for Energy e pelo ITER, onde se aprende a fusão sem depender de uma ronda de financiamento.

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