A energia das marés e das ondas converte a energia cinética das correntes de maré e do movimento oceânico em eletricidade através de turbinas submarinas e conversores, e é o setor renovável mais pequeno do mundo: a capacidade global operacional atingiu cerca de 513 MW em 2024 - menos do que um único parque eólico offshore de grande escala. Na UE, aproximadamente 1.100 pessoas trabalham em energias marinhas renováveis. Para a transição energética, o oceano oferece algo que a energia eólica e a energia solar não conseguem igualar: as marés são previsíveis com décadas de antecedência e as ondas mantêm energia à noite e no inverno, complementando a intermitência das fontes dominantes.
Portugal tem uma posição singular neste setor. A costa atlântica portuguesa apresenta uma das maiores densidades de energia de onda da Europa - cerca de 25 kW/m em média no litoral norte e centro. O local de ensaio de Aguçadoura, ao largo de Póvoa de Varzim, acolheu em 2008 o primeiro parque de ondas comercial do mundo e é hoje a base da CorPower Ocean, que está a construir o primeiro parque de ondas de 10 MW do mundo com 40 milhões de euros do EU Innovation Fund. O PNEC fixa uma meta de 200 MW de energia das ondas até 2030. A IRENA projeta 80.000 empregos globais no setor até 2030. São projeções, não ofertas de emprego. A questão é se se quer fazer parte da construção de uma indústria desde as suas fundações - com o risco de que não chegue a descolar.
De Aguçadoura a VianaWave: Portugal como laboratório mundial
A história de Portugal na energia das ondas começa em Aguçadoura, a 5 km da costa de Póvoa de Varzim. Em setembro de 2008, três conversores Pelamis de 750 kW foram aí instalados - o primeiro parque de ondas comercial do mundo. O projeto falhou: problemas nos rolamentos obrigaram à remoção dos equipamentos em novembro do mesmo ano, e a empresa escocesa Pelamis Wave Power entrou em insolvência em 2014. Antes disso, em 2004, o Archimedes Wave Swing de 2 MW foi testado no mesmo local. E entre 2011 e 2016, a plataforma WindFloat 1 demonstrou aqui a viabilidade da eólica flutuante offshore, gerando 17 GWh em cinco anos.
O local não morreu com a Pelamis. É hoje gerido pela WavEC Offshore Renewables e pelo consórcio OceanACT - cinco instituições portuguesas (CEiiA, +ATLANTIC CoLAB, Forum Oceano, INESC TEC e WavEC) que disponibilizam infraestrutura de demonstração em mar aberto para empresas de energia oceânica.
CorPower Ocean: do protótipo ao parque comercial
A sueca CorPower Ocean transformou Aguçadoura na principal plataforma mundial de ensaio e comercialização de energia das ondas. O conversor C4 - 300 kW de potência nominal, 9 metros de diâmetro, 19 metros de altura - foi instalado em setembro de 2023 e começou a exportar eletricidade para a rede portuguesa em outubro do mesmo ano. Em fevereiro de 2024, a CorPower anunciou resultados que superaram as previsões do modelo digital: picos de potência de 600 kW e sobrevivência a ondas de até 18,5 metros durante a tempestade Domingos - um recorde para o norte de Portugal.
O passo seguinte é o projeto VianaWave: 30 conversores avançados com uma capacidade total de 10 MW, que produzirão cerca de 30 GWh por ano - o suficiente para 7.500 habitações. A CorPower estima que 75% do valor ao longo da vida útil do projeto será gasto em Portugal. A base operacional está no Porto de Viana do Castelo, onde a empresa está a construir um centro de I&D, fabrico e assistência com um investimento de 16 milhões de euros. O arranque está previsto para 2028-2029.
A empresa cresceu de 74 para aproximadamente 100 colaboradores entre meados de 2024 e início de 2025, empregando engenheiros estruturais, de software, eletrotécnicos e técnicos de ensaio entre Estocolmo e Aguçadoura. É o maior empregador privado do subsetor de energia oceânica na Europa.
Eco Wave Power: energia das ondas no Porto
A israelita Eco Wave Power está a instalar uma central de 1 MW no molhe da Barra do Douro, no Porto, como primeira fase de uma concessão de 20 MW com a APDL (Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo). A avaliação das condições marítimas, realizada pela holandesa MetOcean Consult, confirmou que o local é adequado para a tecnologia da empresa. O plano de execução foi submetido em janeiro de 2026 e a ligação à rede está prevista para 2026. A tecnologia da Eco Wave Power difere da maioria: os conversores são fixados a estruturas costeiras existentes - molhes, cais, quebra-mares - eliminando os custos e riscos da instalação em alto mar.
Recurso e política
O governo criou em 2023 uma Zona Livre Tecnológica para energias renováveis oceânicas ao largo de Viana do Castelo, cobrindo 7,63 km² para ensaio de novas tecnologias. O PAER (Plano de Afetação de Energias Renováveis Offshore), aprovado em janeiro de 2025, identificou áreas prioritárias para renováveis offshore em Viana do Castelo, Leixões e Figueira da Foz. O estudo europeu EVOLVE estimou um potencial praticamente viável de 15,5 GW de energia das ondas em Portugal - um recurso que, se explorado, ultrapassaria várias vezes a capacidade elétrica instalada do país.
A variação sazonal é significativa: a potência das ondas na costa oeste oscila entre cerca de 90 kW/m em novembro e 10 kW/m em agosto. Isto torna a energia das ondas particularmente valiosa como complemento à solar, que tem o padrão sazonal inverso.
Marés e ondas: duas indústrias diferentes
Energia das marés: mais perto da comercialização
As turbinas de corrente de maré - equivalentes submarinos dos aerogeradores - são a tecnologia oceânica com maior tração comercial. O custo nivelado de energia (LCOE) situa-se entre $0,20 e $0,45/kWh, mas as projeções apontam para $0,11/kWh quando se atingirem 1-2 GW instalados - um nível competitivo com a eólica offshore.
O projeto escocês MeyGen, operado pela Ampeak Energy, é a referência mundial: 6 MW operacionais, mais de 84 GWh de produção acumulada e expansão para 59 MW em curso até 2029. O governo britânico reservou a energia das marés nas suas leilões CfD e adjudicou aproximadamente 140 MW acumulados até 2026. Em França, dois projetos em Raz Blanchard (Normandia) - FloWatt (17,5 MW) e NH1 (12 MW) - garantiram mais de 155 milhões de euros em financiamento público e tarifas reguladas a 20 anos, com entrada em operação prevista para 2028.
Portugal não tem correntes de maré significativas. O mercado de trabalho nesta tecnologia concentra-se no Reino Unido (Escócia) e em França.
Energia das ondas: diversa e em fase inicial
Os conversores de ondas continuam numa fase anterior. Dezenas de designs competem - colunas de água oscilante, absorvedores pontuais, dispositivos de galgamento - sem um vencedor claro. O LCOE oscila entre $0,30 e $0,55/kWh. É aqui que Portugal tem vantagem competitiva: o recurso de ondas, a infraestrutura de ensaio e a presença da CorPower e da Eco Wave Power fazem do país o principal polo europeu de energia das ondas.
Os mercados que empregam

Orbital O2, a turbina de marés mais potente do mundo, EMEC, Orkney. Fonte: S.clarkorbital / CC BY-SA 4.0
Reino Unido: o centro mundial da energia das marés
A Escócia concentra a maioria do emprego em energia das marés. O Pentland Firth, entre o continente escocês e as Órcadas, tem algumas das correntes de maré mais rápidas do planeta. A Universidade de Edimburgo estima que o setor poderá gerar 8 mil milhões de libras e 15.000 empregos diretos até 2050. Edinburgh, Orkney, Inverness e Shetland são os principais centros de emprego. Especialistas em engenharia offshore, engenharia costeira e engenharia marinha encontram aqui o mercado mais ativo do setor.
França: investimento estatal a longo prazo
Os projetos FloWatt e NH1 deverão criar 6.000 postos de trabalho não deslocalizáveis ao longo da sua vida útil. O plano energético francês PPE3 prevê um concurso de 250 MW de capacidade de marés comercial até 2030. A HydroQuest, que lidera o consórcio FloWatt, emprega 30 pessoas - 80% engenheiros - a partir de Grenoble.
Ilhas Faroé
As Ilhas Faroé pretendem atingir 100% de eletricidade verde até 2030, e a energia das marés é uma peça central da estratégia. A sueca Minesto opera o Dragon 12 (1,2 MW) - um "papagaio submarino" que voa em padrões de oito nas correntes de maré - e tem um plano de 200 MW que cobriria 40% do consumo do arquipélago.
Principais empregadores
Desenvolvedores de turbinas de marés
- Ampeak Energy (anteriormente SIMEC Atlantis Energy, Reino Unido) - operador do MeyGen, 59 MW em contratos CfD, mais de 84 GWh acumulados
- Orbital Marine Power (Orkney, Reino Unido) - turbina flutuante O2 (2 MW), 9,2 MW em expansão no EMEC, Westray Array de 30 MW em planeamento
- Nova Innovation (Edinburgh, ~45 colaboradores) - primeiro campo de marés offshore do mundo em Shetland, projeto SEASTAR (4 MW, 16 turbinas, 20 milhões de euros Horizon Europe)
- Minesto (Suécia, ~35 colaboradores) - Dragon 12 nas Ilhas Faroé, pipeline de 200 MW, cotada na Nasdaq Stockholm
- HydroQuest (França, 30 colaboradores, 80% engenheiros) - lidera o consórcio FloWatt (17,5 MW)
Desenvolvedores de energia das ondas
- CorPower Ocean (Suécia/Portugal, ~100 colaboradores) - maior empregador do subsetor, mais de 95 milhões de euros captados, projetos de 10 MW (Portugal) e 5 MW (Escócia)
- Eco Wave Power (Israel, Nasdaq: WAVE) - 1 MW no Porto, concessão de 20 MW com APDL, expansão para EUA e Índia
- Ocean Power Technologies (EUA) - plataformas PB3 PowerBuoy para monitorização offshore autónoma
Engenharias e centros de investigação
- DNV - mais de 170 projetos em energia oceânica, certificação e consultoria técnica
- WavEC Offshore Renewables (Lisboa) - gestão do local de Aguçadoura, investigação, projetos Horizon Europe
- IST / Universidade de Lisboa - centros CENTEC e IDMEC, investigação em conversores de ondas e modelação numérica
- European Marine Energy Centre (EMEC) (Orkney) - principal centro de ensaio marítimo do mundo
- OWC (parte do ABL Group) - consultoria especializada em energia oceânica
Carreiras ao longo da cadeia de valor

Instalação de turbinas de marés na barreira de Oosterscheldekering, Países Baixos. Fonte: TTCTW2016NBU / CC BY-SA 4.0
Engenharia e I&D
A maioria dos empregos atuais concentra-se em engenharia. Arquitetos navais projetam turbinas, sistemas de amarração e plataformas. Engenheiros de hidrodinâmica modelam correntes de maré e espectros de onda para otimizar a captura energética. Engenheiros eletrotécnicos trabalham em sistemas de controlo submarino, ligação à rede e eletrónica de potência.
O trabalho é iterativo: desenho de componentes, ensaios em tanques de ondas e em mar aberto, análise de modos de falha, redesenho. A CorPower emprega engenheiros estruturais, de software e técnicos de ensaio entre Estocolmo e Aguçadoura. Muitos profissionais acedem ao setor através de posições pós-doutorais, estágios em laboratórios nacionais ou mestrados em energia marinha renovável (Bangor University, University of Strathclyde, TU Delft).
Desenvolvimento de projetos e instalação
Com o crescimento dos projetos, aumenta a procura de gestores de projeto, especialistas em avaliação ambiental, peritos em licenciamento e responsáveis de construção offshore. A instalação requer operadores de embarcações, especialistas em cabos submarinos, pilotos de ROV (veículos operados remotamente) e equipas de mergulho. A expansão do MeyGen de 6 para 59 MW empregará equipas de construção durante vários anos; os projetos franceses em Raz Blanchard necessitarão de obras civis, cablagem submarina e instalação de turbinas até 2028.
Operação e manutenção
Os parques de marés e ondas em operação precisam de monitorização, inspeção e reparação contínuas. Os técnicos trabalham em turnos de duas semanas no mar, acedendo às instalações por embarcações de transferência. Centros de controlo remoto - semelhantes aos de parques eólicos - monitorizam o desempenho em tempo real. Esta componente crescerá significativamente com a expansão do MeyGen (59 MW) e os projetos da CorPower em Portugal (2028-2030).
Tabela salarial
Os dados salariais específicos de energia oceânica são escassos devido à dimensão reduzida do setor. A maioria corresponde a categorias mais amplas de engenharia marinha e renováveis offshore.
| Função | Portugal | Reino Unido | França |
|---|---|---|---|
| Engenheiro marinho | 30.000 - 55.000 € | £37.000 - £79.000 | 45.000 - 81.000 € |
| Arquiteto naval | 28.000 - 50.000 € | £30.000 - £67.000 | 37.000 - 54.000 € |
| Gestor de projeto (renováveis offshore) | 32.000 - 58.000 € | £48.000 - £75.000 | 41.000 - 69.000 € |
| Engenheiro submarino | - | £36.000 - £74.000 | 40.000 - 81.000 € |
Salários brutos anuais, dados de 2025-2026. Fontes: SalaryExpert, Glassdoor, PayScale. As posições offshore incluem suplementos por trabalho no mar. Em Portugal não existe informação salarial pública para engenheiro submarino devido ao volume reduzido de emprego nesta especialidade. Tipo de câmbio orientativo: 1 GBP ≈ 1,17 EUR.
Os salários em energia oceânica alinham-se com os da eólica offshore e são competitivos com os do petróleo e gás para funções equivalentes, embora a compensação total em hidrocarbonetos continue a ser aproximadamente 15% superior.
Condições de trabalho
O trabalho offshore em energia oceânica partilha as exigências físicas da eólica marítima. A instalação de turbinas de maré realiza-se a partir de embarcações em correntes fortes, em localizações remotas como o Pentland Firth ou o Raz Blanchard. As janelas meteorológicas são estreitas: ondulação elevada, nevoeiro ou correntes excessivas podem atrasar operações durante dias. As certificações BOSIET (Basic Offshore Safety Induction and Emergency Training) e HUET (Helicopter Underwater Escape Training) são obrigatórias para posições offshore.
As funções em terra - projeto de engenharia, desenvolvimento de projetos, análise de dados - oferecem ambientes de escritório convencionais com opções crescentes de trabalho remoto. A CorPower, Orbital e Nova Innovation operam equipas distribuídas por vários países.
A natureza experimental do setor implica que a iteração e o fracasso ocasional fazem parte do trabalho. Os protótipos avariam, os sistemas de amarração falham, condições marítimas inesperadas revelam fraquezas de projeto. Os engenheiros dedicam tempo significativo a analisar dados de desempenho, ajustar modelos e redesenhar componentes - trabalho que exige paciência e resiliência.
As mulheres representam aproximadamente 32% da força de trabalho renovável global segundo a IRENA, com menor representação em funções técnicas offshore.
Da indústria marítima portuguesa à energia oceânica
Portugal tem um ativo que poucos países do sul da Europa partilham: uma indústria naval e marítima consolidada. O estaleiro West Sea em Viana do Castelo emprega cerca de 400 pessoas e constrói navios de cruzeiro, patrulheiros offshore e plataformas - exatamente as competências que a energia oceânica necessita. A CorPower instalou a sua base operacional no mesmo porto por esta razão.
Competências transferíveis
Mais de metade dos trabalhadores do setor do petróleo e gás expressa interesse em transitar para renováveis offshore. As transferências mais diretas:
- Engenheiros submarinos do petróleo e gás para instalação de turbinas de maré
- Técnicos de eólica offshore para operação e manutenção de parques oceânicos
- Arquitetos navais de estaleiros para projeto de turbinas e plataformas
- Pilotos de ROV e mergulhadores comerciais para inspeção e reparação submarina
- Engenheiros eletrotécnicos de subestações offshore para integração na rede
A experiência em energia hidroelétrica - turbinas hidráulicas, modelação hidrodinâmica, eletrónica de potência - transfere-se diretamente para a energia oceânica.
Percurso académico e destinos laborais
O IST (Lisboa) possui os centros CENTEC e IDMEC, com investigação em conversores de ondas liderada pelos professores António Falcão e Luís Gato. A WavEC oferece oportunidades de investigação e participa em projetos Horizon Europe. Mestrados internacionais em energia marinha renovável (Bangor University, University of Strathclyde, TU Delft) são vias académicas diretas.
Para profissionais portugueses, as oportunidades imediatas estão em Portugal (CorPower, Eco Wave Power, WavEC, IST) e no Reino Unido (Edinburgh, Orkney). A França oferece perspetivas crescentes na Normandia e Bretanha. A barreira linguística no Reino Unido e em França é baixa para angloparlantes, e a maioria das empresas do setor opera em inglês.
Tecnologias como a energia térmica oceânica - que aproveita a diferença de temperatura entre a superfície e as profundezas do oceano - representam direções adicionais de investigação dentro da energia oceânica.
O caso para entrar na energia oceânica não se baseia na segurança de emprego. Baseia-se em fazer parte da geração fundadora de uma indústria. Os profissionais que projetam turbinas e resolvem desafios de instalação entre 2025 e 2030 serão os líderes do setor em 2040-2050. Os riscos são reais: a longa história de startups falhadas na energia das ondas (Pelamis Wave Power, Aquamarine Power) e o colapso da Northvolt no armazenamento de energia mostram que o financiamento de tecnologia limpa não garante sucesso comercial. Quem precisa de emprego estável deve optar pela eólica offshore. Quem quer ajudar a construir o próximo setor de energia offshore - e aceita a possibilidade de fracasso - a energia oceânica está a contratar.
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